Sinceramente, já nem me lembrava da última vez que eu o vi. Muito menos como eu era, mas o que pude relembrar foram as várias vezes que ele cuidou de mim como uma filha.
Há muito tempo, quando criança selecionava meus tios favoritos e neles eu tinha a imagem paterna que o meu pai pouco me dava naquela época. O tio Celito era um dos que compunha o hall dos tios prediletos, juntamente com o tio Paulo e o tio Waldemar.
Lembro-me muito bem, que o tio Celito tinha por mim um carinho enorme... Ele me chamava de olho de gato, branquela, filhota.. Em toda viagem que ele fazia sempre tinha uma lembrança pra mim, um brinquedo, algo interessante. Quando criança ficava triste no momento em que ele partia para viajar, entretanto, ele sempre me colocava pra cima, dizendo que a distância seria só temporaria e que logo ele estaria aqui e com um presente pra mim. E sempre era assim, ele voltava e as vezes a primeira coisa que ele fazia era ir lá em casa me levar meu presente, que na maioria das vezes era uma barbie. Eu tinha coleções de barbie dadas por ele.
Felizmente, ele não era só o tio de dar presentes, mas também era o de cuidar de mim. Ele sempre me falava que mulher deveria saber se defender, foi com ele que aprendi meus primeiros golpes de Karatê, mas que infelizmente, parou por aí. Ele não deixava meu pai brigar comigo quando estava por perto, e fora que ele cozinhava maravilhosamente bem.
Tem tantos detalhes que queria ter fixado mais na minha memória. Apesar de tudo, o essêncial ficou comigo e irá me acompanhar pra sempre.
Apesar da falta que meu pai fazia naquela época, pois sempre tivemos uma relação complicada, onde ele mantinha o favoritismo pela minha irmã mais velha. Os meus tios, supriram a falta paterna que eu tinha. Por muito tempo, me vi no centro das atenções, e ficava pensando, todos eles tinham seus filhos e outros sobrinhos que poderiam preferir, mas eles me dedicavam essa atenção porque talvez eu precisasse ou porque afinidade fosse maior.
Pode até parecer presunção, talvez seja, mas eu me sentia e me sinto assim até hoje quando me recordo daquela época.
Quando criança você tende a colocar o seu pai num pedestal digno de heroi, no meu caso, eu tinha três pedestais.
Mas dai quando crescemos, veio a distância, mudança... e o relacionamento foi ficando longe. As brigas e intrigas de família me afastaram daqueles que me faziam feliz.
Desde então só tive notícias por alto, e uma dessas notícias se referia ao tio Celito que se encontrava doente de diabetes, já estava cego e havia amputado uma perna. E que estava sendo tratado em Cuiabá.
Porém ao amanhecer deste dia, acordei com a ligação do meu pai, avisando que ontem, aqui em Belém, o meu querido tio havia falecido e sido enterrado. Confesso que não discerni a noticia ainda. Só lembro de ouvir a voz do meu pai triste e apesar de toda a distância que temos atualmente, me pareceu amoroso ao falar comigo.
Custo a pensar no que aconteceu. Ainda não acredito! Segundo o meu pai, ele tinha voltado a Belém para se despedir da família que deixou aqui, e hoje faria 15 dias que estaria aqui.
Não sei descrever o que sinto. Tristeza, saudade, agonia.. Só sei que passei o dia indisposta. Optei por permanecer em casa e refletir sobre toda a situação.
Eu fui dormi ontem com um aperto no peito, mas achava que era pelo filme que vi, mas hoje tenho certeza que era por outra coisa.
Precisava escrever para desabafar e tentar encontrar o nome do meu sentimento.
O que vai ficar para sempre é a imagem dele quando eu tinha meus sete anos. Sei que ele foi uma boa pessoa, teve seus erros, mas a imperfeição é nossa marca registrada. Sinto saudades imensas dele. E agora com a certeza de que não o verei mais isso se torna vazio demais...